Uma Abordagem Planetária de Sistemas Inteiros

I. Critica

Uma Abordagem Planetária de Sistemas Inteiros

pacal votanO sistema tecno-científico moderno, a ciência do espaço tridimensional, embora afectando todo o ecossistema planetário e possuindo ampla aceitação como  sistema de valores normativos é, na realidade, por suas origens, uma definição mental que é estritamente Euro-americano em suas raízes culturais. Uma definição mental é uma realidade consensual institucionalizada como um conjunto de normas social-mentais. Na sua aceitação oficial como padrão de sistema de conhecimento, a tecnociência moderna desloca todos os outros sistemas de valores humanos, isto é, a Arte, Medicina Chinesa etc. Por outras palavras, a tecnociência moderna representa uma definição planetária mental inflexível e ditatorial, mono-sistémica e monocultural planetária mental, que opera à custa de outros sistemas de valor cultural.

Um definição mental planetário monocultural é uma contradição inerente no sentido de que pode acabar por destruir tudo o que encontra – incluindo a si próprio – ou, por incapacidade de evoluir mais, evoca em resposta um sistema correctivo abrangente. Tal sistema corretcivo abrangente é a abordagem de sistemas globais planetários, que são necessariamente policulturais  e polisistémicos, e estão inteiramente baseados na Quarta Dimensão – o tempo, incluindo-a.

Na abordagem dos sistemas planetários totais que tenho perseguido desde 1966, trabalhei com três premissas:

A) O Sistema Psicofísico

B) A Estética Universal, e

C) Os Mayas.

Todos os três, embora aparentemente diferentes uns dos outros, são unificados por uma quarta premissa, que é a

D) Os Sistemas Planetários Totais.

Individualmente e em conjunto, estas premissas sempre me forneceram consistentemente uma perspectiva sobre a definição mental monocultural predominante, e ao mesmo tempo ofereceram-me pistas para uma  investigação mais profunda sobre a compreensão do tempo a partir de sua própria dimensão. Apesar dos meus argumentos e métodos poderem, no início, parecer originais ou mesmo bizarros, finalmente, levaram-me a um lugar de compreensão universal pelo qual eu poderia formular a base para uma articulação e uma exacta exposição do tempo, visto da sua própria dimensão.

Estas premissas e suas inter-relações são resumidas da seguinte forma:

 

A Premissa Psicofísica

Na realidade, tudo o que experimentamos e conhecemos é, por natureza, mental. Ao que chamamos como físico – o que a ciência tridimensional mede e  explora da Terceira Dimensão – é inseparável do que pensamos sobre isso. Na verdade, o mundo é, em última instância, apenas o que sentimos e sabemos como experiência sensorial, e a própria experiência sensorial é, finalmente, determinada por estados e atitudes mentais, dos quais não se pode separar. O facto de uma máquina funcionar é devido à activação de um conjunto particular de atitudes e projeções mentais.

A exposição experiencial mais detalhada da premissa psicofísica é dada pelas técnicas de meditação Budista, shamatha (silenciamento da mente) e vipassana (percepção mental). Escusado será dizer que a corrente principal da tecno-ciência moderna relega essas técnicas e esta premissa à fronteira subjectiva do paranormal. Mas tudo é subjectivo e relativo, incluindo – e em muitos aspectos especialmente – a ciência moderna. O que é verdadeiramente subjectivo e irracional é a mente não explorada.

O problema da alienação da natureza resulta e é reforçado pela tendência de assumir categoricamente, sem entender, que todo pensamento, teorias, conceitos e assim por diante não passam de construções mentais sem realidade intrínseca própria, inseparáveis dos estados emocionais inconscientes e atitudes culturais não exploradas. É precisamente para abordar esta infeliz condição mental que as técnicas de higiene de atenção plena são definidas e praticadas para demonstrar, de forma imediata, clara e directa, a natureza psicofísica da realidade.

 

A Premissa Estética Universal

O impulso para a arte é um atributo universal da inteligência; A inteligência existe como uma propriedade da natureza e não é apenas uma propriedade humana. Assim, toda a ordem natural exibe características estéticas, e o valor humano mais duradouro de todos é a tendência à expressão artística. A expressão artística é intrínseca à inteligência humana e constrói-se naturalmente a partir das relações sensoriais que definem e determinam a nossa experiência da realidade. A nossa realidade é a construção total de possíveis permutações de relações sensoriais. Uma vez que toda experiência sensorial é intrinsecamente estética, e todos os seres humanos possuem praticamente a mesma codificação de ADN e o mesmo catálogo de relações sensoriais, há uma tendência comum para a universalidade de formas e símbolos dentro de todas as culturas humanas.

Existe potencialmente um conjunto estético de formas e experiências. para cada um dos cinco sentidos (toque, paladar, olfacto, audição e visão), enquanto o sexto sentido – a mente – é (potencialmente) o sensor sintetizador. A ferramenta estética da mente é o número  entendido como a capacidade de rácios harmónicos ou de proporções para formularem construções abstractas que, no entanto, estão em conformidade com os níveis subliminares ou inconscientes das variedades da experiência sensorial. A raiz da mente é da Quarta Dimensão, e a Quarta Dimensão é organizada por uma ordem puramente matemática conhecida como a matriz radial. Dizer que a ferramenta estética da mente é um número significa simplesmente que o sistema de números inteiros de relações e proporções que regem a Quarta Dimensão regula a mente. Rácios e proporções de números inteiros são intrinsecamente estéticos. Na mente, essas relações e proporções estéticas inatas dão forma aos níveis subliminares e inconscientes da nossa experiência sensorial. Por sua vez, o impulso expressivo humano usa essas proporções na infinita variedade de formas artísticas e meios de comunicação.

O impacto cumulativo das diferentes formas de arte e a capacidade contínua de se reagrupar e inovar a partir deles, são a base subjacente do que conhecemos como  história da cultura humana. O problema da alienação da natureza é, na verdade, a tendência para construir a capacidade da experiência humana dentro de categorias, já existentes, negando a realidade evolutiva (em processo) da interação com a natureza sensorial. A libertação da mente humana das camadas de conceitos artificiais que agora oprimem a humanidade em ondas de feedback rigorosamente definido, só pode resultar numa profusão de formas e estilos artísticos de comportamento que desafiam a compreensão das actuais capacidades imaginativas.

 

A Premissa Maya

Os antigos Mayas da Mesoamérica, histórica e culturalmente, representam a conquista de uma civilização totalmente distinta das civilizações da Eurásia e da África, incluindo o Egipto, Mesopotâmia, India, China e Greco-Romano-Europeia, os quais se influenciaram uns aos outros, em maior ou menor grau. Enquanto as civilizações euro-asiáticas operavam com uma base numérica decimal (contagem de 10) e uma relação de tempo baseada em 12, os Mayas operavam com uma base numérica vigesimal (contagem de 20) e um rácio de tempo baseado em 13.

Expresso através de um sistema simplificado de notação holográfica de três símbolos (ponto para unidades, barra para cinco unidades, zero para base vinte) capaz de descrever ordens infinitas, os Mayas possuíam um complexo matemático de calendários e sistemas de calendários para além da dimensão que poderia ser necessário, pelo menos de acordo com a hipótese Euroamericana prevalecente de que os calendários foram desenvolvidos para ajudar o início da sociedade agrícola na determinação de ciclos de culturas. As matemáticas posicionais baseiam-se no zero.

A civilização do Velho Mundo desenvolveu uma matemática zero e um sistema decimal -base dez, o que significa que o sistema posicional avança por potências de 10, ou seja, 10, 100, 1000, 10 000 etc. A civilização dos Mayas desenvolveu uma matemática zero e um sistema vigesimal – base 20 o que significa que este sistema posicional avança por potências de 20, ou seja, 20, 400, 8000, 160.000, 3.200.000. Como pode se pode ver de imediato, a base 20 da matemática posicional possui uma potência exponencial de aumento, muito diferente das matemáticas de base dez.

No entanto, uma vez que a interpretação mental euro-americana deriva e está sistematicamente enraizada numa base numérica e de tempo decimal (10) e duodecimal (12), as suas percepções também são (inconscientemente) desequilibradas de acordo com essas proporções de números mentalmente formativos. Assim, qualquer avaliação feita da matemática Maya — base 20 e dos sistemas de calendário — base 13, em conformidade com os pressupostos euroamericanos não analisados ficam muito aquém da realidade.

Considerando os seus termos, a matemática do calendário Maya apresenta um nível incomparável de sofisticação mental harmoniosa para este planeta. Essa é a essência do que eu chamo de “Fator Maia” (1987) e que, para explicar sua capacidade de sincronização harmónica de ciclos planetários e estelares, pressupõe ainda uma origem ou base galáctica para este sistema. Ignorar a natureza e as implicações deste factor profundamente negligenciado neste momento contribui ainda mais para a alienação humana da natureza.

 

A Premissa dos Sistemas Planetários Totais

A soma da experiência humana não pode ser separada de sua localização dentro do sistema planetário total que fornece o ambiente para o desenvolvimento da inteligência humana. Os estágios do desenvolvimento da inteligência humana também se referem a uma evolução de todo o sistema, que não pode ser separado do conjunto bio-geológico do qual faz parte. A contribuição e os efeitos da inteligência humana devem ser colocados precisamente dentro da estrutura geral e do desenvolvimento de todo o sistema planetário, de modo que uma avaliação precisa possa ser feita. Sem esse objectivo —ou seja, uma avaliação honesta e lógica de todo o sistema— nenhum progresso real pode ser feito para superar o problema essencial que agora perplexa a humanidade e degrada o ambiente planetário: a alienação humana da natureza.

Pôr de lado uma compreensão genuína do tempo, e estar culturalmente ligado a uma tradição específica —a euro-americana— a ciência tridimensional, as matemáticas e a tecnologia do espaço não podem mais contribuir para uma compreensão essencial deste problema e, portanto, liderar qualquer tipo de solução a longo prazo. Somente visto sob a perspectiva de uma abordagem planetária de sistemas totais, o tempo pode começar a ser definido em seus próprios termos, contribuindo assim, por fim, para o ingrediente crítico que agora carece profundamente do nível mental geral da humanidade. Esta definição de sistemas totais do tempo e a Quarta Dimensão contribuirão, não apenas, para o conhecimento humano, mas também para a evolução da espécie como um todo.

A abordagem dos sistemas planetários totais pode ser definida de acordo com as contribuições de vários pensadores e cientistas ao longo do século XX, incluindo: o estadista sul-africano Jan Smuts (Holismo e Evolução Humana, 1926); O modelo de campo ressonante do francês psico-matemático Charles Henry (Generalização da Teoria da Radiação, 1924); W.I. Vernadsky (Ensaios em Geoquímica, 1924, Biosfera, 1926, Noosfera, 1938); Pierre Teilhard de Chardin (O Fenômeno do Homem, 1955); Buckminster Fuller (Manual de Operação da Nave Terra, 1969, Sinergética, 1975-79); Oliver Reiser (Humanismo Cósmico, 1966); James Lovelock (Gaia, 1982); Rupert Sheldrake (A Nova Ciência de Vida, 1982); e José Argüelles (Ascensão da Terra, 1984).

Resumindo: O Planeta Terra é um organismo unitário em evolução. A constituição inerte ou inorgânica do planeta, incluindo seu núcleo, é em última instância cristalina na origem e na natureza (em vez de incandescente). O papel evolucionário do núcleo cristalino e da estrutura geral da Terra interna em combinação com processos térmicos de radioatividade, eletromagnetismo e geomagnetismo ainda são pouco compreendidos, mas tornar-se-ão mais compreensíveis quanto mais o tempo for adequadamente compreendido na sua própria dimensão. Em essência, no entanto, a Terra pode ser descrita em termos de um “modelo de campo ressonante” de três campos interactivos em ressonância mútua: o gravitacional ou geomagnético; o eletromagnético; e o bio-psíquico (Henry, 1924). Estes três campos são dinamicamente interpostos na Biosfera.

Na superfície do planeta que pode ser quimicamente dividida em corpos inertes e vivos, está a Biosfera, uma fina capa unitária na qual ocorrem os níveis mais complexos de mudança e evolução. A tendência recente tem sido a de se referir à Biosfera como uma zona meteorologicamente volátil, tal como a ecosfera. Formando os limites exteriores da Biosfera está a Ionosfera, cerca de 96.500-112.500 metros acima da superfície da Terra. O condutor eletromagnético interno da ionosfera é complementado pelo condutor eletromagnético externo, os cinturões de radiação de Van Allen, a cerca de 14.500 e 17.700 quilómetros distantes da superfície da Terra. A partir daí  propaga-se a magnetosfera, estendendo-se, com a forma semelhante a uma cauda, cerca de 64.400 quilómetros. O propósito destes cinturões eletromagnéticos é filtrar radiações solares-galácticas de acordo com as necessidades dinâmicas da Biosfera em evolução.

A humanidade, como um organismo total, é um subcorpo do maior corpo da vida, definido por Vernadsky como “a unidade de toda a matéria viva na biosfera”. O atributo activo da biosfera é devido à capacidade da matéria viva de libertar incessantemente energia capaz de fazer o trabalho. A história da Biosfera é um processo de estádios de colonização da matéria viva. Teilhard de Chardin refere-se ao processo humano de colonização da Biosfera como a hominização do planeta. Para se compreender adequadamente, a inteligência humana e sua expansão cultural / tecnológica devem ser vistas como uma função da mais recente geologia, o holoceno (12.000 BPE), enquanto que o impacto ambiental global da humanidade deve ser encarado como uma verdadeira força geológica.

O feedback interactivo do subcorpo vivo, homo sapiens, transforma a Biosfera através de uma fase histórica intermediária, a Tecnosfera, na Noosfera, a capa mental planetária. A transformação da Biosfera na Noosfera ainda não está completa, mas é considerada como uma conclusão necessária e inevitável para o circuito interactivo de feedback bio-geocultural comumente referido como a disseminação da civilização tecnológica humana. Segundo Teilhard de Chardin, uma vez que a radiação da humanidade sobre o planeta (hominização planetária) atinge o ponto de uma complexa rede tecnológica de comunicações (electrónicas) —o sistema nervoso planetário— então a fase final da evolução humana começa: a planetização da  humanidade.

Vernadsky fala mais precisamente desse processo em termos de:

“… aquela imensa nova forma de energia bio-geoquímica que é representada na Biosfera pelo trabalho tecnológico do homem, complexamente guiado pelo seu pensamento. É interessante que o aumento, com o passar do tempo, de máquinas na estrutura da sociedade humana também se desenrole na progressão geométrica, assim como a reprodução de qualquer tipo de matéria viva, incluindo o homem … Os políticos devem estar conscientes do presente processo elementar de transição da Biosfera para a Noosfera.

“A propriedade fundamental da energia bio-geoquímica é claramente revelada no crescimento da energia livre na Biosfera com o progresso do tempo geológico, especialmente em relação à sua transição para a noosfera”

Vernadsky, 1938

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